O dom musical nasce com o músico ou pode ser desenvolvido?

Neil McLachlan diz que quer fazer da música o que a Apple fez para o computador pessoal. Por mais de duas décadas, o professor universitário, um artista-cientista, tem trabalhado para aumentar a participação da música. “Apenas 5% das pessoas (no Ocidente) que ingressam em curso superiores de música graduam-se tocando música”, afirma o professor adjunto da Universidade de Melbourne. “No geral, a educação musical criou um elitismo em torno de performance musical que fez com que as pessoas achem que não podem aprender a tocar”, disse ele.

McLachlan trabalha em uma equipe multidisciplinar do Centro de Música, Mente e Bem-Estar (MMW) da universidade de Melbourne, uma iniciativa que visa compreender a relação entre nossos cérebros e os diversos tipos e estruturas musicais. “A música é para a saúde mental o que o esporte é para a saúde física” é um slogan frequentemente utilizados por McLachlan quando se fala em educação musical.

McLachlan está agora no processo de concepção de um conjunto de novos instrumentos (quatro já foram patenteados) que afirma que qualquer pessoa (mesmo os não-músicos) poderá aprender a tocar em apenas uma hora. Ainda em fase de protótipo, os instrumentos de percussão (sinos, tambores, gongos, etc) já produzem sons claros e harmoniosos, uma vez que são projetados para serem tocados individualmente ou como componentes de uma orquestra inteira.

Os novos instrumentos musicais são uma extensão dos notáveis Sinos da Federação, instalação de som gigante com 39 sinos cujos badalos são acionados através de computador (MIDI). Desenvolvido por McLachlan em 2000 para as comemorações do centenário da Federação da Austrália, estes sinos são os primeiros instrumentos de percussão na história a possuir tons harmônicos. Ao atingir este avanço design de som, McLachlan começou a pensar sobre como conceber instrumentos que promovam maios acesso à aprendizagem de música. O engenhoso projeto inevitavelmente levou-o a uma questão neurobiológica sobre a música: “Como sabemos que é um bom som musical?”

Em 2006, uniu-se a McLachlan a professora Sarah Wilson, da Escola de Ciências Psicológicas, para o desenvolvimento de pesquisas sobre como nossos cérebros recebem e processam todo tipo de som. A pesquisa de McLachlan e Wilson levou-os então a desenvolverem uma teoria nova e revolucionária de como o sistema auditivo funciona.Essa nova teoria propõe que os animais primeiro reconhecem as fontes de som antes de processar outras características tais como altura do som ou localização.

“Isso faz sentido do ponto de vista evolutivo, porque a coisa mais importante que um animal precisa saber é se eles podem ouvir predadores ou presas”, explicou McLachlan. “Isso também faz sentido do ponto de vista de processamento de informação, pois podemos usar a experiência prévia para adaptar a audiência a novas circunstâncias.” Como o reconhecimento do som envolve o desenvolvimento de memórias de longo prazo para sons, esta teoria ajuda a explicar por que diferentes indivíduos podem ter reações tão diferentes ao som, especialmente à música.

Para testar esta teoria ainda mais, McLachlan realizou m um estudo controlado envolvendo o gamelão indonésio, um instrumento de percussão conhecido por soar dissonante ao ouvido ocidental. No estudo do gamelão, um grupo de músicos ocidentais que aprenderam a tocar o instrumento foi convidado a encontrar o tom desses instrumentos. Outro grupo de músicos ocidentais, que nunca havia tido contato com o gamelão, fez o mesmo teste. Os resultados revelaram que as pessoas que tocavam gamelão poderiam encontrar a afinação dos instrumentos com muita precisão e e acha-los harmoniosos, enquanto que os músicos ocidentais que não eram treinados no gamelão não responderam da mesma forma.

O estudo demonstrou que a percepção do tom, harmonia, escala e ritmo é aprendida dentro de determinadas culturas musicais, o que sugere que as estruturas musicais não são fisicamente ou biologicamente determinadas. “Nós podemos reconhecer sons porque é isso que temos de fazer no mundo real, mas perceber o tom com precisão exige treinamento”, disse McLachlan.

Este processo refinado é muito particular, mas de acordo com McLaclan e Wilson, todos nós temos a capacidade de construir estas memórias para o som – os neurocientistas se referem a essa habilidade como “plasticidade cerebral”.
O estudo é uma revelação para muitas pessoas que há muito tempo acreditam que existem algumas pessoas que simplesmente nascem com a habilidade para a música. McLachlan espera que esta recém-descoberta, junto com seus novos instrumentos, aumente a participação da música na vida cotidiana das pessoas e, com isso, permita que o tocar música seja algo tão comum quanto praticar exercícios físicos.

Fonte: SmartPlanet

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